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Tácio Dias Palhão Mendes
Análise da Música Fighting in the Street do jogo Streets of RageImprimir
Escrito por Tácio Dias Palhão Mendes

Olá amigos leitores. Neste primeiro artigo sobre composição para jogos, pretendo fazer uma análise de uma música e comentar sobre os elementos nela presentes. A trilha sonora é um dos fatores de imersão mais importantes em um jogo. A música, quando casa bem com a jogabilidade, causa sensações diferentes em vários momentos e cenas diferentes conforme o desenrolar da trama. Ela cria uma identidade única para o jogo. Vamos pegar como exemplo a música Fighting in the Street do jogo Streets of Rage, um dos meus jogos favoritos da infância.

O estilo musical das trilhas do Streets of Rage é o estilo eletrônica. Neste estilo, a percussão costuma ser simples e com poucos elementos. Os elementos são: o bumbo (kick), o prato (hat), a palma (clap) e o tarol (snare drum). Também podemos citar, como características principais do estilo, o baixo (bassline) e os sintetizadores, podendo cada um deles ter um papel diferente durante a música. Alguns deles podem atuar como contra melodia e, outros, como acompanhamento (lead) ou. ainda, de solo ou voz principal. O compasso desse estilo é quatro por quatro, significando que cada marcação de tempo é feita a cada quatro batidas do metrônomo.

Vamos agora estudar o formato, dissecar e analisar cada elemento da composição e o papel de cada um deles na música. A música está em escala de fá. É muito importante que cada nota da música respeite a sua escala, pois se esta regra não for seguida, a música poderá soar errada ou estranha aos ouvidos.

Nos primeiros 7 segundos da música, temos a sequência de introdução. De cara, podemos identificar 2 elementos principais: o bumbo, o baixo, um efeito sonoro e uma melodia decrescente.

Pode-se ver que a cada quatro contagens de quatro tempos, na transição da terceira para a quarta, temos uma sequência diferente na percussão, que é usada geralmente para fazer uma virada e introduzir novas sequências e instrumentos. A introdução da música até aos 15 segundos apresenta uma nova sequência e a percussão é enriquecida com pratos e palmas. Esta nova sequência é o baixo na música. Ela está normalmente inserida nas oitavas mais inferiores do piano, e ela geralmente se repete durante o desenvolvimento da música. No caso do eurodance por exemplo,o órgão é o instrumento que faz o baixo da música, mas ele fica nas oitavas mais superiores do piano. É interessante observar o panning dos instrumentos da percussão. O panning é uma técnica onde você consegue criar a ilusão de posicionamento de som trabalhando apenas com os volumes de cada instrumento.

Uma nova sequência de sintetizadores é inserida dos 15 aos 28 segundos. Este tipo de sequência desempenha o papel de acompanhamento da música. Repare a semelhança com o baixo mas observe que ela está nas oitavas medianas do piano. Isso é feito desta maneira para evitar um fenômeno que os profissionais de som chamam de conflito de instrumentos, que acontece quando dois instrumentos estão ocupando uma mesma oitava. Observe também que há um efeito sonoro usado a cada quatro batidas do metrônomo, o que é uma estratégia para sequestrar a atenção do ouvinte.

Dos 28 segundos aos 45 segundos, temos um refrão formado por uma sequência nova nas oitavas superiores: é a voz principal da música. Ela é um pouco repetitiva mas é mais dinâmica do que o baixo, porque a cada marcação de tempo ela muda suavemente, sem fugir da ideia principal. Observe que na primeira marcação de tempo nos é apresentada uma sequência, na segunda marcação é apresentada uma sequência levemente diferente da primeira, na terceira marcação está a mesma sequência de notas da primeira, e na quarta uma sequência que, junto com uma nova sequência de baixo, faz uma virada e cai de volta no acompanhamento da música sem o solo.

Aos 45 segundos até 1 minuto e 15 segundos, temos uma repetição de sequências previamente identificadas dos 15 aos 28 segundos e uma virada no final. Esta progressão de sequências pode ser chamada de “chamada de refrão”.

Dos 1:15 aos 1:30 temos um segundo refrão. Neste segundo refrão, estão presentes a mesma sequência de baixos, a mesma sequência de percussão, a mesma sequência de acompanhamento, uma nova sequência de solo, e uma sequência alta de sintetizadores que funciona perfeitamente com a melodia principal do solo, seguindo um formato diferente do primeiro refrão, alternando duas sequências a cada marcação de tempo. Isso ocorre durante três tempos e, no quarto, uma sequência de baixo e solo diferentes para marcar uma transição.

Dos 1:30 aos 2:06 temos as mesmas sequências do intervalo anterior, mas, no final delas, é apresentada uma nova sequência de acordes no baixo. O acompanhamento mudou mais uma vez e a contra melodia também. Na contra melodia, temos duas melodias principais e, na quarta contagem de tempo, temos uma nova transição.

Depois desta transição aos 2:07, temos as mesmas sequências anteriores, algumas delas alternando-se com um ximbau na percussão que enriquece as sequências anteriores e algumas sequências repetidas que vão até aos 2:37, onde temos um prato (crash), um elemento de percussão também usado para marcar transições.

Dos 2:38 aos 2:53, temos uma ausência quase que absoluta de instrumentos com poucas sequências. Este trecho é chamado de breakdown. Um breakdown é uma sequência quase vazia, que tem como função principal descansar os ouvidos e reduzir a saturação causada pela música. Ela pode ser usada como chamada de refrão ou como transição. Repare que no breakdown temos novamente uma progressão de instrumentos que vão entrando até que uma nova sequência de sintetizadores se forme. Assim, sequências são introduzidas e omitidas de maneira alternada durante o intervalo final da música que vai dos 2:54 até o final da música aos 3:22 com uma virada de percussão e formando um loop completo da música, que se repete inteira a seguir.

Nos próximos artigos falarei sobre o meu processo de composição e criação de músicas, e explicarei melhor cada elemento específico de uma composição.


Comentários (5)
  • Bruno Torres  - Parabéns!!
    avatar

    Muito Bom Este Artigo,

    Sempre fui curioso para saber como eram compostas
    as músicas em jogos,

    percebo que alguns jogos do Snes possuem muitas linhas de Synths,

    Parabéns,

    Espero mais Artigos Assim
    Valeu

    Abraço!

  • gabriel
    avatar

    Sei que ia dar trabalho, mas ia ser legal fazer um desenho disso. Tipo um timeline com a estrutura da música (introdução, tema a, etc), e umas observações. Mas muito legal a análise, parabéns!

  • Tácio Mendes
    avatar

    Muito obrigado!

    E sim, nos próximos posts eu tentarei colocar ilustrações :)

  • André
    avatar

    Muito bom! Adorei seu artigo e gostaria muitoooo de ver o próximo que você vai falar sobre os elementos de uma composição.
    Aguardo ansioso!

    Abraços

  • Nayara X.
    avatar


    De fato fantástico. No aguardo dos próximos.

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